Ensayo Brasileño: O que laguinhos podem nos ensinar por Mirna Wabi-Sabi

Pessoas em geral sabem muito pouco sobre a natureza e seus ecossistemas locais.

Hoje em dia, ficou mais fácil imaginar um mosquito geneticamente modificado para ser estéril do que aprender quais animais em nossa área são seus predadores naturais. Isso provavelmente ocorre porque é mais fácil votar num político que possa endossar pesquisas e implementar políticas contra a dengue do que observar e estudar o comportamento da vida selvagem local. A maioria de nós não tem tempo e recursos para este tipo de pesquisa, mas, o mais importante, falta-nos interesse ou motivação (quem sabe o que veio primeiro). Não precisamos olhar de perto, no entanto, para ver que as políticas governamentais e políticos são falhos e equivocados, especialmente no que diz respeito a práticas ambientalmente sustentáveis. Uma alternativa a continuar contando com eles poderia ser tomar certas medidas nós mesmos, mesmo que no microcosmo de nossas próprias vidas.

Felizmente, passei a pandemia socialmente isolada numa casa com um jardim, numa área do Brasil conhecida pela vegetação rochosa de Mata Atlântica, e pude trabalhar remotamente. Tempo e recursos estavam disponíveis para mim, e eu aproveitei isso para começar a fazer todas aquelas coisas que pensamos em fazer, mas nunca temos tempo. Uma horta, compostagem, pão, tomar sol, exercícios, e assim por diante. Mas a saga do laguinho começou mais tarde e me consumiu de uma forma inesperada.

Rapidamente, ficou claro para mim que construir um mini lago é uma lição de biologia difícil e valiosa. Quanto mais você aprende, mais percebe o quão pouco sabe.

Tudo começou com as visitas noturnas de um sapo à tigela de água dos cachorros. Depois da primeira vez em que o vi, todas as noites na mesma hora, sua presença era certa. E toda vez que o via, agora batizado de Danny DeFrog (em homenagem a Danny DeVito), pensava em como minha vizinhança é hostil à vida selvagem — riachos são poluídos, árvores são cortadas para dar espaço para estruturas de concreto e o crescimento espontâneo de plantas é considerado “sujeira”. Depois de algumas semanas, decidi fazer um mini lago para o Danny, o que me levou ladeira abaixo. Como posso fazer um lago sem criar um ponto de proliferação de mosquitos? Como posso fazer isso sem arrastar uma extensão pelo quintal para ligar um filtro elétrico? As perguntas nunca pararam desde então.

Deixe-me contar um pouco do que aprendi — o que está longe de ser tudo o que há para se saber.

As lojas de aquários são meio deprimentes. Os peixes são muito baratos, tratados como descartáveis, e os sistemas são entregues como ambientes higiênicos controlados, onde o ser humano pode ter o maior controle possível sobre as variáveis. Na natureza, porém, existem infinitas variáveis a serem consideradas, todas imprevisíveis e diversas.

Basicamente, vários tipos de peixes comem larvas de mosquitos, nem todos esses peixes existem na natureza. Muitos são raças domesticadas, como cães e gatos. Portanto, criar um biótopo de peixinho dourado é um oximoro. No entanto, eles precisam de um sistema de filtragem e a maioria precisa de aeração de água. Na natureza, não há bombas e filtros fazendo isso para os peixes, mas recriar este ambiente natural é incrivelmente difícil e uma lição poderosa sobre a natureza.

Resumindo — o peixe faz cocô na água, as bactérias decompõem esses resíduos, transformando-os em nutrientes. Esses nutrientes, por sua vez, são consumidos por plantas aquáticas e algas. Quanto mais as plantas consomem esses nutrientes, menos nutrientes sobram para as algas se alimentarem, mantendo-as sob controle e a água clara. Algumas plantas aquáticas, principalmente as que estão totalmente submersas, também oxigenam a água. Este é o princípio básico. O truque é encontrar um equilíbrio entre esses elementos.

Tomar consciência desses elementos, intensamente presentes em nosso dia a dia, é esclarecedor. Percebemos a qualidade da água e do ar, com que frequência chove, com que frequência e onde o sol brilha e com quais seres vivos compartilhamos este espaço. Por exemplo, seixos, rochas e superfícies ásperas debaixo d’água são boas para hospedar muitas bactérias, mas seixos muito pequenos podem ser comidos por peixes maiores, e algumas rochas podem liberar nutrientes na água que alteram seu pH. Níveis e mudanças drásticas de pH estressam os peixes (às vezes causando a morte), e é possível identificar mudanças em seu comportamento.

A água da torneira mata os peixes; há muitos produtos químicos. Há todo um processo de espera pela evaporação dos produtos químicos ou de tratamento da água de diferentes maneiras. Até a água da chuva pode ser contaminada pela poluição do ar. À medida que a água evapora com o calor e o sol, a água do lago fica mais dura, mais densa de nutrientes e o pH é alterado com o tempo. Por outro lado, as plantas aquáticas precisam do sol, e você pode ver quando elas tiveram muito sol; as folhas ficam amarelas.

Trocas parciais de água a cada poucas semanas são ótimas para manter o lago claro e limpo, assim que você garanta de que não está descartando ovos, ninfas e outros pequenos animais que criaram um lar neste lago. E por parcial quero dizer: nunca substituir mais de 40% do conteúdo total de água de uma vez, para não perturbar o ecossistema muito rápido. Água de peixes rica em nutrientes pode ser usada para regar plantas em vasos, e água tratada limpa pode ser usada para encher o lago de novo.

Tornar-se consciente do equilíbrio entre o brilho do sol e a chuva no que se refere a outros seres além de você é muito enriquecedor. E, acredite em mim, muitos outros seres aparecerão num lago natural. No primeiro mês, eu estava vendo ovos e minhocas, tirei fotos e tentei identificar o que eram. Os peixes comeram as minhocas e os ovos viraram caracóis. Os caracóis comem todos os tipos de restos de matéria orgânica e ajudam a limpar o lago (assim como os camarões), e alguns até oxigenam a água. Mas se eles morrem, fica um cheiro ruim, e eles podem se reproduzir fora de controle. As carpas gostam de comer esses pequenos caramujos, com a concha mais macia. Mas os peixes menores não.

As sanguessugas, no entanto, vão manter a população de caramujos sob controle, sugando-os até secar e deixando apenas a concha. Você pode distinguir uma sanguessuga de uma minhoca pela maneira como ela se move e sua forma — elas têm cabeças pequenas e extremidades traseiras mais largas, movendo-se como acordeões. Se um grudar na sua pele, não se preocupe, a maioria não é prejudicial para humanos e peixes. Essas sanguessugas aparecem do nada e podem se tornar ainda mais populosas do que os caracóis. Nesse caso, você pode usar folhas secas de amendoeira para manter sua população sob controle. Debaixo d’água, essas folhas liberam nutrientes que controlam a qualidade da água.

O ser mais empolgante que testemunhei fazer um lar no lago foi uma libélula. Um dia, notei uma voando, mergulhando a cauda na superfície da água repetidamente. Aparentemente, ela estava botando seus ovos ali. Havia tanta coisa que eu não sabia sobre o ciclo de vida de uma libélula e pude testemunhar de perto. Acontece que as libélulas passam a maior parte de suas vidas debaixo d’água, como ninfas. As ninfas da libélula comem sanguessugas, larvas, girinos e até peixes pequenos. Começam como ninfas minúsculas, transparentes ou verdes, com patas, cabeça e cauda. Ela eventualmente se transforma em uma coisa de seis pernas, com aparência de uma barata debaixo d’água. Eventualmente (no meu caso, quase um ano depois) ela sai de sua pele como uma cobra, e voa para acasalar e colocar ovos em outro lago (se elas não forem comidas por pássaros primeiro, claro). Além disso, é um animal tão antigo que coexistiu com dinossauros. Seus ancestrais são de mais de 200 milhões de anos atrás!

Às vezes, você tenta resolver um problema e cria outro. Um dos meus peixes morreu por causa do que parecia ser uma infecção fúngica. Havia manchas brancas como algodão no lago e no peixe. Embora uma pequena quantidade de sal marinho puro na água possa ajudar a combater a erupção de bactérias e fungos (mesmo em lagos de água doce), esse tratamento com sal matou minhas plantas aquáticas. Várias coisas podem matar as plantas. Peixes mordiscam as raízes, lagartas e vermes se alimentam das folhas, falta de sol, etc. Claro, eu quero que as borboletas sobrevivam; o truque é ter plantas suficientes, então você pode sacrificar uma ou duas para elas.

Na verdade, as plantas aquáticas não são fáceis de encontrar e costumam ser mais caras do que os peixes. Transportá-las por longas distâncias é complicado e, quando você encontra algo, geralmente é o mesmo tipo de espécie (útil, embora invasiva). Existem vários tipos. Algumas flutuam; algumas enraízam-se apenas em água com folhas secas; algumas enraízam em substrato no fundo do laguinho ou em vasos submersos; algumas precisam ser completamente submersas e são impedidas de flutuar por rochas, seixos ou substrato. O substrato é complicado porque pode facilmente afetar a água, seu pH, sua clareza, etc. Então, você tem que encontrar uma maneira de cobrir o solo rico em nutrientes com areia e pedras, para que não faça bagunça na água. A variedade é valiosa porque cada planta tem suas características e comportamento, e pode desempenhar papéis diferentes e importantes.

A batata-doce, por exemplo, é ótima para remover nitratos da água. Um terço dela fica submersa e o resto acima da água. Rapidamente, as raízes crescem, e os caules e folhas sobem. Mas depois de 2 meses é melhor remover, pois, se apodrecerem, os peixes podem morrer. Nesse momento, pode-se destacar os caules e colocá-los de volta na água, descartando o restante na compostagem. Novas raízes vão crescer e o processo pode ser repetido a cada 2 meses. Existem também várias plantas domésticas que crescem em vasos que podem crescer facilmente apenas em água, como a planta Aranha, Filodendros, Lírio Flamingo, Caladium bicolor, Syngonium podophyllum, Bambu da sorte, a família de plantas Cyperus e assim por diante. Sem falar em musgo. Existem tantos tipos e são difíceis de cultivar, mas são fantásticos para a qualidade do ar em torno do seu lago, o que é importante para os peixes, uma vez que precisam de oxigenação também.

Um japonês chamado Shinya, que cria biótopos e mossários com Medakas, foi meu primeiro ídolo de minilagos. Os tipos de plantas e peixes, sem falar na localização, são literalmente do lado oposto do mundo do meu. Mas, embora fosse impossível imitar seu processo, foi incrivelmente útil e inspirador ver o trabalho dele. As informações que compartilho aqui são baseadas na minha experiência pessoal, num contexto geográfico e social específico, portanto, não podem ser reproduzidas de forma idêntica em nenhum outro lugar. Mas esse é o problema de sair do paradigma da industrialização — a natureza não é uma linha de montagem. Não pode ser entregue, só pode ser descoberta, e a jornada é nossa.

Podemos ser incapazes de controlar diretamente os níveis de poluição do ar de nossas cidades, mas conhecer e aplicar os fundamentos disso ao nosso reino pessoal e comunitário é um primeiro passo valioso. No mínimo, pode mudar a forma como nos sentimos e nos apresentar a novos conhecimentos que são imediatamente usados e colocados em prática. Mais importante ainda, essas microiniciativas podem nos ajudar a nos conectar com nosso ambiente natural de uma forma mais saudável e sustentável, e podem expandir e melhorar nossa perspectiva do lugar onde vivemos.

Índice

AGUAPÉ

Esta planta aquática flutuante é considerada invasora. Na natureza, ela pode se espalhar e cobrir toda a superfície de um corpo d’água. Seu excesso costuma ser usado como adubo verde. Por outro lado, sua incrível capacidade de filtrar a água a torna útil no tratamento de esgoto. Ela também tem belas flores, embora de curta duração.

ALFACE D’ÁGUA

Esta planta aquática flutuante reproduz-se incrivelmente rápido e tem a capacidade de oxigenar a água e também de filtrar. Precisa de sol, e depois de dias chuvosos, elas podem precisar que se apare as mudinhas.

BATATAS DOCES

1/3 na água, 2/3 acima da superfície. As raízes vão crescer, removendo nitratos da água, enquanto as folhas se espalham como vinhas. Remova após 2 meses para evitar o apodrecimento. Retire os caules e coloque-os de volta na água, descartando o restante no composto. Novas raízes vão crescer e o processo pode ser repetido a cada 2 meses.

FOLHAS DE AMENDOEIRA SECAS

Lave as folhas secas suavemente com uma esponja e água corrente, para minimizar a contaminação de coisas desconhecidas na sujeira. Deixe secar, guarde em potes, e uma vez por mês coloque uma folha inteira para cada 40 litros de água no lago. À medida que se dissolve e se degrada, ela ajuda o sistema imunológico dos peixes, reduz o estresse, previne doenças, tem propriedades antifúngicas e antibacterianas e reduz naturalmente o pH.

CARAMUJOS

Os caramujos são bons em comer o excesso de matéria orgânica e sobras de ração para peixes e ajudam a manter o tanque limpo. Eles também oxigenam um pouco a água, a menos que morram e apodreçam no fundo do lago, deixando o local fedido também. Alguns tipos se reproduzem muito rápido. A carpa gosta de comer os pequeninos com a casca ainda mole, o que mantém a população sob controle. No entanto, peixes menores como guppy’s e platy’s não os comem.

SANGUESSUGAS

Sanguessugas comem caramujos. Elas se parecem com minhocas, mas com cabeças pequenas e costas mais largas, movendo-se como acordeões em vez de chacoalharem que nem minhocas. Carpas e Koi também adoram comer isso, comem quase tudo. Mas, novamente, com os peixes pequenos, temos que ficar de olho no quão equilibrada está a população de caramujos / sanguessugas. Se houver muitos caramujos e apenas algumas sanguessugas, deixe para lá e as sanguessugas vão fazer seu trabalho aos poucos. Se os caracóis começarem a desaparecer e muitas sanguessugas, maiores, começarem a dominar a área — experimente colocar novas folhas amendoeira secas.

LIBÉLULAS

As ninfas da libélula comem sanguessugas, larvas, girinos e até peixes pequenos. Se você ver uma libélula voando e mergulhando sua bunda na superfície da água, ela está deixando cair ovos. Eventualmente, você verá uma ninfa pequena, transparente ou verde, com pernas, cabeça e cauda.

Ela eventualmente se transforma em uma coisa de seis pernas, com aparência de uma barata debaixo d’água. Eventualmente, ela dai de sua pele como uma cobra e voa, para acasalar e colocar ovos em outro lago. Ela passa a maior parte de sua vida debaixo d’água e é um animal tão antigo que coexistiu com dinossauros.

SAPOS

Eles vêm, bagunçam as plantas, fazem cocô na água, mas são ótimos — comem mosquitos. Eles podem botar ovos e os girinos saem, mas nem sempre sobrevivem, pois, pode haver predadores, como os besouros subaquáticos e as ninfas libélulas.

Sobre a autora

Mirna Wabi-Sabi é editora, escritora, teórica política, professora e tradutora. Ela é a fundadora da iniciativa jornalística Plataforma9. Durante a maior parte de sua vida, ela viajou o mundo, morou em São Paulo, Nova York, Nijmegen, Amsterdã e Salvador, antes de voltar para sua cidade natal, Niterói, em 2019. Depois de testemunhar o clima político pós-11 de setembro como uma jovem imigrante nos EUA e na Europa Ocidental, o trabalho de Mirna começou a orbitar uma mudança social radical, com foco na destruição do patriarcado capitalista branco.

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